O cupido é o final das novelas em preto-e-branco
Voltamos no meio dos anos 70, especificamente em 1976, para relembrar uma novela que garantiu sucesso estrondoso e agradou adultos e crianças, transformando-se numa agradável recordação que até hoje permanece no imaginário de muitos brasileiros que a assistiram.
Eu nem sonhava em existir, mas como todos sabem sou saudosista de uma época em que não vivi. Gosto dos anos 50 e 60, realmente tudo que é antigo é maravilhoso... gosto das roupas, cabelos, música, carros... Com ajuda de alguns arquivos e da querida internet tenho memória visual dos personagens que marcou o horário das 19 horas da TV Globo.
A trama escrita por Mário Prata (autor de Sem Lenço, Sem Documento, 1977, e Bang Bang, 2005) se passava na ficticia Albuquerque, interior de São Paulo, em 1961. Françoise Forton, a protagonista da novela, vivia Maria Tereza, normalista que sonhava em morar na capital e ser eleita Miss Brasil - o que conseguia no final da trama. A moça era apaixonada por João (o talentosíssimo Ricardo Blat), jovem idealista, ciumento e que queria ser jornalista.
Em torno do casal, muita confusão. Mederiquis (Ney Latorraca) comandava a turma de "rebeldes sem causa". A solitária Olga (Maria Della Costa), mãe de Maria Tereza, da voluntariosa Ciça (Sonia de Paula) e do tímido Tavico (João Carlos Barroso). enfrentava o preconceito da cidade por ser desquitada - mas ganhava o coração do viúvo Guima (Leonardo Villar). As fofoqueiras Dona Adelaide (Célia Biar) e Dona Eulália (a divertida Kleber Macedo) ocupavam o tempo comentando a vida dos outros ao telefone. O famoso bordão da dupla ganhou as ruas ("Fala, danadinha, fala!").
A cidade, no entanto, tremia ainda mais com a chegada da socióloga carioca Betina (Heloísa Millet). Com hábitos avançados para o interior, a jovem ganhava a má fama em Albuquerque, mas conquistava o coração de Mederiquis, que caía de amores pela forasteira. E, para completar o fuzuê, a irmã Angélica (Elizabeth Savalla) também se encantava por Belchior (um dos atores favoritos do meu pai, Luiz Armando Queiroz), o mendigo da região. Um homem cujo a história era desconhecida, dormia na praça e, todos os dias, fazia narrações num microfone imaginário, para uma rádio inexistente. Com o apoio da religiosa, Belchior acabava resgatando seu misterioso passado: ele tinha sofrido um acidente de carro, no qual perdera toda a família. E o juízo também, passando, então, a vagar sem rumo.
(Ney Latorraca, Régis Cardoso (sentado), Tião D'Ávila e João Carlos Barroso)
Outros personagens e suas histórias também fizeram sucesso. Por exemplo: o romance da solteirona Daquinha (Vic Militelo) com o português Fidélis (Tony Ferreira); a relação de Guimarães (Oswaldo Louzada) e seu neto apaixonado por futebol Zé Maria (Ricardo Garcia); Caniço (João Carlos Barroso), rapaz desajeitado que era sempre proibido de cantar na banda Personélitis Bóis, comandado por Mederiquis; Glorinha (a querida Djenane Machado), que mantinha um diário secreto engraçadíssimo; e o cantor de Albuquerque Carneirinho (Tião D'Ávila), braço direito de Mederiquis.
A produção da novela recriou o clima do verdadeiro Miss Brasil 1961. A cena em que Maria Tereza concorria e ganhava foi gravada no Maracanãzinho, com o público de 10 mil pessoas e com a presença dos apresentadores oficiais do concurso, os saudosos Hilton Gomes e Marly Bueno.
Para dar mais verdade à cena do Miss Brasil, nem Françoise Forton foi avisada de que sua personagem seria eleita Miss Brasil. "Obtive uma reação realista ao extremo, até lágrimas ela deixou cair", contou Régis Cardoso no livro: No Princípio Era Som.
As gravações externas eram feitas em Itaboraí, no Rio de Janeiro.
Estúpido Cupido foi a última novela da TV Globo produzida e exibida em preto-e-branco - com exceção dos dois últimos capítulos, que foram coloridos.
Estúpido Cupido resgatou sucessos da década de 60 e pôs a garotada da época para dançar muito rock, twist e cha-cha-cha - e fez com que o disco vendesse mais de 1 milhão de cópias. O tema de abertura era a música homônima da trama, sucesso de Cely Campello, que também participava da trilha com Banho de Lua. O disco resgatava os hits Broto Legal, Ela É Carioca, Biquíni de Bolinha, Amarelinho, Meu Mundo Caiu e Boogie do Bebê. Já na trilha internacional, os clássicos Don't Be Cruel, Ruby (na voz de Ray Charles), Myster Puppy Love.
Por Vinícius Sylvestre
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